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Edição Especial WTC

11 de setembro: ...


... eu estava lá !!!!

Em 2001 fui passar uma semana em Nova Iorque com minha namorada ( esposa hoje em dia ) e se me perguntassem do que mais gostei daquele passeio eu diria: do Little Italy e do World Trade Center. Little Italy por causa do astral legal, das músicas e da comida. Do WTC pela surpresa: uma grande infraestrutura no topo do mundo com comida, lojas, banheiros, cinema e no terraço uma vista maravilhosa com uma cidade vibrante aos nossos pés.

Nas fotos abaixo podemos ser vistos quatro dias antes da tragédia capturados por uma webcam em plena Times Square. Repare que na foto em que ela aparece em primeiro plano estou no telefone público ao fundo falando com o meu irmão aqui no Brasil. Foi ele quem imortalizou estes momentos.

​ Eesta câmera não está mais disponível e era do lado direito do McDonald's, mas você pode ver mais ou menos o local clicando aqui.




Sábado, 08/09/01
Voltando da Estátua da Liberdade tiramos fotos com as torres atrás da gente antes de entrarmos. Aqui posso ser visto com a Torre Norte (*1) lá atrás, o WTC 3 abaixo e do lado esquerdo e a Torre Sul (*2) na direita.


(*1) WTC 1, American #11, 08:46am / (*2) WTC 2, United  #175,  09:03am


Compramos nossos bilhetes ( clique nele ), aguardamos na fila e subimos usando um elevador rápido pacas onde uma universitária informava sobre os prédios, sua altura, etc. Chegamos lá em cima ( andar 107 ) e a surpresa que falei: lojas, uma espécie de praça de alimentação, banheiros e tudo mais. Parecia um shopping voador.





Comemos ( era hora do almoço ), briguei com o atendente do Sbarro, compramos umas besteiras e subimos para o terraço em uma escada rolante. No roof  havia uma espécie de grande praça onde podia se andar e com bancos para sentar ( veja abaixo ). Fomos em cada canto da área, tiramos fotos e vimos a Estátua pequenininha lá em baixo. Eu até fiquei de pé em um dos bancos para conseguir um ângulo melhor de visão, ainda impressionado com o tamanho da antena da torre ao lado. Uma maravilha e posso fechar questão: o Empire States era um fracasso ao lado do WTC.




Na foto abaixo ( clique nela ) você pode ver o que sobrou da antena da Torre norte que está na mostra do 9/11 Museum.



Um passeio e tanto. Chegando lá em baixo e do lado de fora preparei meu tripé para tirar um foto com minha namorada aproveitando o automático da máquina ( com filme !!! ). Havia uma placa onde estava escrito "Torre 2" ou algo assim. De repente e do nada surgiu um cara dentro de um terno-uniforme e me disse simplesmente que "tripé não podia". Tivemos que tirar as fotos separadamente, um de cada vez. Repare abaixo que estou com o tripé na mão. Na foto com o tamanho original, inclusive, pode-se ver o chato do cara que embarreirou o tripé lá parado lá no fundo.


O que ele pensou ? Que aquilo era um rifle ? Que eu era um terrorista ? Isto agora me parece morbidamente engraçado.


( segunda, 10/09/01 )
Minha namorada tinha pensado em ir em a um shopping que ficava a 40 minutos do nosso hotel para passar o dia inteiro fazendo compras. Era como se fosse um dia livre para nós uma vez que já tínhamos visitado tudo que tinhamos selecionado em nossos planos e esta era uma boa opção, pelo menos para ela. Eu não estava a fim de passar o dia fazendo aquilo e propus a ela que fosse sozinha. Eu ficaria passeando pela cidade e procurando novidades.

A verdade é que o dia não estava dos mais bonitos e decidimos, então, ficarmos juntos e ir no final da tarde a um outro shopping que ficava perto do WTC. Tivemos uma certa dificuldade em acha-lo porque o raio da rua em que ele ficava simplesmente não aparecia nos nossos mapas ( GPS era coisa de astronauta naquela época ). Agora entendo o mote "New York's Best Kept Secret".

Chegamos lá já no final da tarde e havia uma chuvinha chata caindo, o que fez com que o shopping ficasse quente pacas por dentro. Me lembro de ter ido para fora tomar um ar e olhado para cima. Vi as torres subindo em direção ao céu, desaparecendo no meio das nuvens e da chuva. Pensei comigo: "Estar lá em cima agora ? Sem chance ... ".




(terça, 11/09/01 )
Acordamos cedo, afinal, era nosso último dia em Nova Iorque ... bem, pelo menos era o que acreditávamos até aquele momento. Ainda tinhamos que comprar alguns presentes e o horário do nosso voo ( da American ! ) nos obrigaria a sair do hotel na hora do almoço.


Clique na foto e a veja ampliada.


Nosso hotel ficava na 32nd Street esquina com Broadway num pedaço da cidade que é conhecido como Little Korea, grudado no Empire State ( clique aqui e veja o site do hotel ). Logo que saímos senti uma certa bagunça de carros de bombeiros e sirenes pelas ruas, mas nem me liguei. A cidade é regularmente barulhenta e movimentada e me pareceu que tudo estava normal. Tentei várias vezes lembrar o que o relógio mostrava, mas acho que só uma hipnose regressiva me ajudaria com isto. O fato é que viramos na Broadway e depois na 33 para irmos na 5a Avenida tomar nosso café da manhã. Já na 33 reparei que tinha um grupo de jovens amontoados e conversando agitadamente em uma roda. Ignorei ... era uma garotada de um colégio daquela área e pensei que pudessem estar fazendo hora para entrar na aula.

Só que quando estávamos quase na 5a havia outro grupo de pessoas - adultos - com a cara enfiada numa vitrine cheia de TVs. Fiquei na ponta dos meus pés e a imagem que eu pude enxergar era uma visão frontal da ilha com a Torre 2 em primeiro plano pegando fogo e a maior fumaceira. Falei para minha namorada: " Xiii, uma das torres está pegando fogo !!!".

Apertamos o passo e quando chegamos finalmente na 5a Avenida olhamos para o horizonte à direita ... Aqueles prédios eram absurdamente altos. Sabe quando você desenha algo em perspectiva ? O que está perto é grande e o resto vai diminuindo conforme chega no horizonte ? Pois é, as torres furavam este esquema, formando uma espécie de distorção da realidade no canto direito da imagem.




Para nossa surpresa percebemos que a outra torre ( a que tinha a antena em cima ) também pegava fogo. Pensei comigo: "Nossa ... que fogo da pesada. Pegou numa torre e deve ter passado para outra ...". Além do espetáculo bizarro de ver as duas torres pegando fogo, vocês não imaginam o que é ver a 5a Avenida fechada, sem trânsito e cheio de gente no meio da rua olhando para aquelas tochas metálicas. Confesso que apesar de tudo não entendi a dimensão do que ocorria. Até falei para minha namorada "vamos comer que isto vai pegar fogo o dia inteiro". Achei que os bombeiros levariam horas para apagar aquilo e tudo bem. Nada de especial.

Entramos numa lachonete na 5a em baixo do Empire State e comemos. Não demoramos mais do que 15 minutos e ao sairmos o espetáculo já ganhava uma dimensão maior. O número de pessoas na rua havia aumentado consideravelmente e pela primeira vez pude reparar que pessoas choravam e se abraçavam. Haviam carros largados com as portas abertas e rádios ligados com o som muito alto. Mais: antes eu conseguia distinguir vagamente a silhueta dos dois prédios no horizonte, mas nesta hora eu só via a torre da antena em primeiro plano. A outra já estava sumida atrás da fumaça.




Apesar de que meu inglês na época já era relativamente bom, se as pessoas não estivessem falando comigo eu não prestava atenção, ou seja, o som ambiente não era automaticamente traduzido pelo meu cérebro. No caso das rádios eu sabia vagamente que estavam falando sobre o incêndio, mas estava tão vidrado nas torres que não liguei para mais nada.

Com aquela curiosidade mórbida da raça humana começamos a andar em direção ao incêndio, mas ainda estávamos bem longe do acontecimento. Aliás, 70% das pessoas estavam paradas assisistindo, 29% se afastavam do local e 1% - como eu e um zilhão de fotógrafos com suas máquinas possantes - iam em direção ao problema.

Começamos a andar rápido e mais rápido para vencer os muitos quarteirões que nos separavam dos prédios. Para falar a verdade a minha namorada não estava nada animada com a minha pressa. Ela não estava naquela "morbidez" toda que falei. Peguei ela pela mão e falei: "Garota, vem comigo que eu vou morrer velho." Não sei de onde eu tirei isto.

Acho que era quase dez horas .... bem, só hoje entendo o que vi. A fumaça que subia organizadamente para o céu em forma de colunas altas de repente fez um movimento muito parecido com o de um líquido quando bate no fundo de um copo. Já viu anúncio na TV quando dão um close na base da tulipa e a cerveja gira quando chega lá ? Pois é, a fumaça fez isto quando a 1a torre caiu. Só que eu já não conseguia mais vê-la e não podia sequer imaginar que aquele prédio pudesse desmoronar. O meu ângulo de visão não me permitiu entender o fato.

Perdi toda a noção do tempo. Sei apenas que andamos muito e fomos nos aproximando cada vez mais das torres ( bem, para mim as duas ainda estavam lá ), mas ainda assim bem distantes. Só depois de muito tempo lendo e relendo a cronologia dos fatos é que percebo que andamos por pelo menos meia hora, pois a 1a torre caiu por volta das 09:54h e a outra lá pelas 10:28h.

De repente - meu Deus - a Torre Norte começou a cair. Aquela antena que havia em cima do prédio foi descendo, descendo, descreveu um pequeno ângulo para a esquerda, começou a ser engolida pela fumaça e ... sumiu !!!

"A torre caiu !!! A torre caiu ...". Só consegui falar isto e olhar para a minha namorada, incrédula nos que seus olhos viam.

Houve uma espécie de "ohhhh" coletivo nas ruas.

Não tive reação. Não tirei fotos. Não havia som. Parei um instante de andar para fazer daquela imagem uma tatuagem nas minhas lembranças.

O dia estava lindo e do meio da fumaça brotaram estrelinhas douradas, como se fossem purpurinas de ouro no céu, cada uma delas representando uma alma indo ao encontro do eterno. Os vidros que se quebravam refletiam o sol num espetáculo de beleza desnecessária e inoportuna.

"I felt a great disturbance in the Force ... as if millions of voices suddenly cried out in terror and were suddenly silenced." teria dito Obi-Wan.

O que vi - de muito mais perto, de um ângulo mais amplo, baixo e para a esquerda - foi muito parecido com esta sequência:





Neste ponto devo esclarecer algumas questões:

- eu não vi os aviões batendo nas torres;
- eu não ouvi os aviões batendo nas torres;
- não vi pessoas se jogando;
- não entendi a fumaça da 1a torre caindo e
- NOSSA, sim, eu vi a segunda torre descendo com tudo !!!

Andamos, andamos, andamos. No horizonte onde antes havia um prédio restava uma fumaça em forma de torre meio borrada. Hordas de pessoas vinham na nossa direção. Chegamos numa esquina onde a polícia já tinha fechado o acesso. Não me lembro qual e nem a que horas. Eu não tinha noção da magnitude do negócio e não prestei atenção. Apenas andava e queria estar perto do fato.




Presencie coisas que ( mais uma vez ) não fizeram o menor sentido. Por exemplo, vi um grupo de 10 soldados, duas fileiras de cinco, marchando rápido, no estilo "hup, hup, hup", segurando fuzis imponentes e com roupas de guerra bacteriológica !!! "Estes americanos são mesmo uns exagerados ... pra que tudo isto ? Medo que o esgoto estourado contamine a população ?", pensei.

Como não era possível prosseguir em direção aos escombros viramos para a esquerda e ficamos observando a situação. De repente ouvi um baque surdo e perguntei: "Você ouviu isto ?" ... minha namorada disse que não. Numa fração de segundos, por trás dos guardas e dos cavaletes, aproximou-se uma poeira branca e rápida avançando. Ela seguiu pela rua que vinha e abriu uma fina cortina secundária tanto para a direita dela própria ( onde eu estava ) quanto para a esquerda, enchendo a rua com um efeito "neblina".

Não fizemos nada. Apenas deixamos a poeira nos envolver. Nunca vou saber o que foi aquilo. Talvez um resto das torres cedendo de vez ou um outro prédio caindo. Resolvemos, então, continuar pela esquerda e fomos até a próxima esquina. Chegando lá o cerco estava sendo aumentado, ou seja, fomos obrigados a recuar um quarteirão.

Na maior tranquilidade entramos em uma loja de tranqueiras e minha namorada começou a dar uma geral para ver se havia algo de interessante, afinal, era nosso último dia ( ha, ha, ha ) em Nova Iorque. Enquanto ela browseava a loja fiquei distraído com não sei o que até que meu cérebro entrou no "modo de tradução automática" e comecei a ouvir o que o rádio da loja estava falando.

"Os Estados Unidos estão sendo atacados. Um avião acertou o Pentágono e outros dois as torres gêmeas de Nova Iorque, ocasionando seu colapso. Presidente George Bush não sei o que, o vice foi levado para não sei onde ... "

Minha namorada depois me disse que eu fiquei lívido naquele momento. Por um instante me dei conta do que estava rolando e o quão enrolados estávamos. Ela me perguntou: "Que foi ?!" ... " Garota, os Estados Unidos estão sendo atacados, aviões derrubaram as torres, o Pentágono "bum", outro avião foi abatido não sei onde ... #vamoscairforadaquirapidinho !!! "

Saímos da loja e a vida tinha novas cores através dos meus olhos. Não que eu estivesse com medo e nem achando que fosse morrer, mas a paisagem da cidade fazia um sentido diferente. Ônibus encostados com as portas abertas e ninguém dentro, lojas fechadas com tudo jogado, carros largados em qualquer canto no meio daquelas avenidas enormes, vento e sujeira ... um lance meio Omega Man ( veja a foto do meio aqui de baixo; clique nela ).




Conforme as pessoas iam sendo evacuadas bloco a bloco - incluindo quem estava dentro dos prédios, grandes ou pequenos - a multidão ia aumentando, todo mundo sendo arrebanhado para um mesmo lado da cidade. Os únicos carros que andavam eram os oficiais fosse na contra-mão ou por cima das calçadas.



Em um puro lance de sorte, encostei em um orelhão perto de um posto de gasolina que ainda estava funcionando. Pelo que fiquei sabendo depois foi muita sorte mesmo. Além do congestionamento de ligações ( muita gente procurando parentes e amigos e muita gente querendo avisar que estava tudo bem ), quando as torres desmoronaram levaram junto todo um aparato de antenas de transmissão normal e celular. Somou-se a isto o fato de que as grandes centrais telefônicas que funcionavam no subsolo do WTC ficaram esmagadas ou inundadas.

Foi engraçado porque foi só eu encostar no tal telefone e começar a falar que juntou uma fila enorme. Liguei para o meu irmão no Brasil para dizer que estava bem e ele mais que depressa promoveu uma chamda em conferência com o resto da família do tipo "todo mundo falando junto".

Foi nessa que um rapaz oriental que estava atrás de mim cutucou o meu ombro e falou alguma coisa em uma lingua que não era a inglesa. Se ele soubesse como eu detesto quando encostam em mim ...



Clique na foto e a veja ampliada.
Repare na fumaça das torres já caídas no canto esquerdo.


Tive um ataque no telefone, berrando impropérios em português para a fila toda e exagerando nos "érres" de maneira a dar mais força ao meu discurso. A galera gela quando houve uma outra lingua cheia de "érres" fortes e/ou aspirados. Pensam que é alemão ou russo. "Puta que o PaRRIU !!! Me deixa usaRR a poRRa do telefone !!!" ... e terminei a frase dando uma porrada com a mão em cima do orelhão que doeu pacas, mas aguentei dando uma de machão. A galera se assustou e recuou. Terminei a ligação, bati o telefone, olhei para a fila, gritei "O RRato RRoeu a RRoupa do RRei de RRoma RRomário seu meRRda" e fui embora. A praga foi tamanha que depois o telefone ficou mudo.

Difícil dizer quanto tempo andamos de volta em direção ao nosso hotel, pois era meio longe e tudo estava confuso. O mais engraçado é que eu estava usando uma camisa dos bombeiros de NY justo neste dia e houve quem me cumprimentasse pelo "meu admirável trabalho". Nesta caminhada vi três coisas que nunca vou esquecer:

- um senhor com um terno imundo ( foto abaixo ) em estado de choque, tentando ser animado pelos passantes; ele não soltava sua mala de mão e tinha o rosto sujo de poeira marcada por onde suas lágrimas correram;

- o exército evacuando um quarteirão ( e eu estava nele ) onde havia uma perua abandonada que "poderia conter bombas" e

- dois F-15 ( suponho ) com uma velocidade e estrondo espantosos interceptando e escoltando um avião de carreira que estava chegando na cidade ... Coisa de filme !!!



Clique na foto e a veja ampliada.




Passamos antes no hotel onde fomos informados que o país estava na beira de um DEFCON 3 e de um Threatcon Delta e que nossa hospedagem estava renovada porque não havia como sair de NY de avião ( até hoje não sei quem bancou isto; não pagamos um tostão a mais pelos dias extras que ficamos na cidade ). Acredita que falaram para não bebermos água que não fosse engarrafada porque o resto poderia estar contaminado ?

"Defcon" stands for the whole military's "defense readiness
condition." Defcon 5 means "normal readiness," "and Defcon 1
means "maximum readiness." The Washington Post
reported that President Bush authorized the military" to declare
Defcon 3, which means "an increase in force readiness above
that required fornormal readiness."

"Threatcon" is short for "terrorist threat condition."
"Threatcon Delta" means a terrorist attack has occurred
in the immediate area or that intelligence indicates that an
attack against a specific location is likely. Normally, Threatcon
Delta is declared as a localized warning (though not in this
case). Among the additional measures taken: more guards are
placed on duty, all vehicles on the military installation are
identified, and all personnel must be positively identified. All
suitcases, briefcases, and packages brought into the
installation are searched. Local authorities are consulted
about closing roads and facilities that might make sites more
vulnerable to terrorist attack.

Enquanto o mundo todo tinha assistido quase tudo ao vivo pela TV, eu e minha namorada só vimos as imagens dos aviões batendo nas torres durante nosso almoço quase três horas mais tarde numa TV do McDonald´s da Times Square que estava assombrosamente vazia e com quase tudo fechado. Nem o chato do Naked Cowboy estava lá. Todas as estações de TV falavam sobre o assunto e quem não tinha uma programação específica passou a transmitir o sinal da CNN. Até a MTV estava nessa. Saímos da lanchonete e eu não pude acreditar que eu estava lá em plena Times Square lendo as notícias sobre o ocorrido naqueles teletipos com suas letras enormes e ligeiras no meio de uma cidade abandonada. Apocalíptico. Só faltava os animais fugirem do zoológico.

Me lembro que se pela manhã o vento levava a fumaça e a poeira das torres para fora da ilha, com o cair da tarde eu acho que o vento mudou e começou a trazer para dentro dela um cheiro de polímero queimado com concreto. Fácil imaginar: algo como se sua casa nova estivesse estivesse pegando fogo, compreende ?



Clique na fotos e as veja ampliadas.


Não havia mais o que fazer e voltamos para o hotel onde o clima era de zona total. Os poucos que haviam conseguido chegar a NY não tinham quartos para ficar porque ninguém podia ir embora. Quem tinha que ir embora não sabia o que fazer, principalmente aqueles que já estavam com o dinheiro no final e seus voos cancelados. Os seguranças que eram inexistentes horas antes ficavam barrando todo mundo na porta e exigindo que se mostrasse a chave do hotel ou algum tipo de identificação.

Havia uma brasileira que ficava no lobby ligando a cada minuto para a mãe ( os telefones voltaram logo ) no Brasil e falando "maínha, quero ir embora daquiiiiii ... " e depois choraaaava. Ridícula. Ao invés de aproveitar o bonus extra de NY que ela ganhou, ficou se desidratando com a pobre da mãe que não podia fazer nada.

A tarde demorou a cair naquele dia quente que parecia um verãozão brasileiro. Ainda voltei a sair do hotel mais tarde e peguei uma carona com uma oriental de bicicleta ( ainda bem que ele não era amigo do cara do telefone ) que me levou até o mais próximo que foi possível da área das torres onde reinava uma fumaça solene. Fiquei impressionado com a quantidade de caminhões tira-entulho azuis que já estava lá. Bem mais que 100 estacionados em uma fila que não acabava mais.

Imagino que muita gente tenha sujado suas últimas roupas limpas quando na noite seguinte fomos impedidos de voltar aos nossos quartos porque havia uma ameaça de bomba no Empire State que fica grudado no hotel. Caramba, se realmente houvesse uma bomba não ia sobrar nada. Nos mantiveram afastados de lá uns quatro quarteirões até que pudéssemos voltar. Tinha gente de pijama evacuada quando já estava pronta para dormir. Houve quem tivesse evacuado no pijama.

Depois daquele dia não me lembro a sequência de coisas que eu e minha namorada fizemos. Já tínhamos visitado quase tudo e a cidade estava toda meia-bomba após a tragédia. Me lembro, entre outras coisas, que a Broadway voltou a funcionar na Sexta e aproveitamos para ir assistir ao Rocky Horror Show onde cantei God Bless America com a platéia para não passar por chato. Arrepiante eram as palavras de ordem do Bush que os letreiros da NASDAQ publicavam ( entre outras, "ataques terroristas podem abalar as fundações de nossos maiores prédios, mas não podem tocar as fundações da América" ). E nós ali, turistas acidentais, lendo aquilo ao vivo.



Clique na foto e a veja ampliada.


Fomos praticamente todas as noites depois do dia 11 até as praças como a Washington Square onde haviam vigílias em nome da paz. Rolavam cartazes por toda a cidade conclamando todos a se encontrarem e a adesão era em massa. Pessoas cantavam ( muito John Lenon ), acendiam velas, faziam discursos, exibiam suas fachas e cartazes, promoviam debates acalorados em rodas de uma maneira que eu nunca tinha visto. Muito legal. Ninguém falava em retaliação. O clima era de paz e haviam representantes de todas as tribos por lá.

Ainda não se sabia o total de mortos no atentado, até porque algumas pessoas estavam não identificadas nos hospitais e outras sequer tinham conseguido telefonar ou voltar para casa, mas já no dia 12 começaram a surgir os rostos da tragédia.

Nas ruas e praças, às vezes sozinhos ou em fileiras enormes e silenciosas, estavam eles lá, nos olhando na maioria das vezes alegres e com roupas coloridas, entre familiares ou amigos ... e vivos.




Clique na foto e a veja ampliada.




Clique na foto e a veja ampliada.




Aos poucos fomos caindo na real sobre esta questão. Minha namorada começou a falar "Lembra do cara com o qual você brigou no Sbarro lá de cima ? E dos universitários que iam nos elevadores contando a história das torres ? Meu Deus, e o cara que implicou com a gente por causa da foto com o tripé ?!". Pedi a ela que pelo amor de Buda que parasse de encher minha cabeça de fantasmas.

Além de irmos nas praças em nossos passeios noturnos, fomos algumas vezes até a beira do desastre ( na realidade muitos quarteirões depois porque o isolamento era severo ) para vermos a movimentação. Nos limites das barricadas havia sempre muitas pessoas dispostas a bater palmas paras os trabalhadores, voluntários, bombeiros e policiais que entravam e saíam . Além disso, estas pessoas doavam comida, água e refrigerantes para o pessoal que estava lá no front. Foi numa dessa que vimos a comitiva do Bush chegar e sair para dar um apoio para os operários.

A coisa fluía de tal maneira que até quem estava batendo palmas ganhava comida e água pela força que estava dando, acredita ? Eu e minha namorada estávamos nessa, não muito animados na questão das palmas, mas sinceramente emanando bons fluidos. Ganhamos de um senhor uma fita azul e vermelha para colocarmos em nossas roupas.




Nos dias que se seguiram a TV avisava que não era mais necessário que as pessoas se apresentassem para doar sangue e nem que médicos de todo o país fossem voluntariamente para NY. Pois é, nessas horas aquele nacionalismo exagerado deles faz algum sentido.

Bem, no sábado de manhã nos avisaram que havia um avião da American que estava indo para Miami onde poderíamos fazer a conexão para o Brasil. Era um processo sem volta e eu tinha a intuição que ao sair do hotel ficaríamos no limbo.

Fomos levados até o aeroporto numa boa, mas lá estava um caos. Gente jogada para tudo que era lado, todos os voos atrasados e - pasme - nenhum telefone funcionando por medida de segurança !!! Tive que pedir o celular de um taxista emprestado ( ele me cobrou, claro ) para ligar para os agentes de viagem para ver se eles podiam nos ajudar ( não podiam, claro ). Nós não tinhamos para onde voltar e parecia que teríamos que ficar no meio daquela massa por muito tempo. O fato é que não foi tão ruim e com um atraso de 4 horas ( que nos custaria caro em Miami ) chamaram nosso avião. Um jogo de ferramentas que compramos para dar de presente não passou no raio-X depois de estarmos horas na fila de embarque. Tive que trocar ele por um outro produto no próprio aeroporto e entrar na fila do embarque de novo. Horas e horas.

Confesso que foi triste ver a polícia dando uma geral num grupo de indianos com turbantes onde havia crianças e senhoras. Histeria e preconceito puro. Já dentro do avião - lotado e quente - tudo foi normal, a não ser pelo fato de que os garfos e as colheres eram de plástico e as facas estavam proibidas. Muito inteligente.

Chegamos sei lá que horas da madrugada em Miami e o quadro era ainda pior: tinha gente do mundo inteiro dormindo no chão, alguns por quatro dias. O pior é que com o atraso ao sair de NY perdemos a conexão que nos levaria ao Brasil e não havia ninguém da companhia aérea para nos ajudar àquela hora.

Exigir seus direitos internacionais enquanto turista ? Ficar num hotel com tudo pago até o próximo avião ? Esquece.

Se deu mal um comissário de bordo que veio no nosso avião e que passou do meu lado. Na realidade, havia um grupo de 10 pessoas comigo e minha namorada, todos brasileiros, andando em bando e querendo pegar alguém ( acordado ) para pressionar. Peguei ele pelo braço e com um inglês nunca dantes navegado despejei toda a minha ira. Literalmente grudamos no cara e ele arrumou um telefone da American onde havia alguém vivo.

Não adiantou nada. Teriamos que deitar no meio daquela escória e esperar sabe-se lá o que e por um tempo indefinido.

Foi aí que entrou em campo o jeitinho brasileiro: ouvimos uma lenda urbana de que a boa e velha TAM estava com quatro aviões pousados no aeroporto e que ela estava endossando qualquer bilhete de outras companhias para levar brasileiros de volta para casa. Quase chorei e cantei o hino. Só não fiz isto para não acordar os esquimós que estavam dormindo em um trenó perto de mim.

Fomos ao balcão da TAM e a coisa não era lenda. Aquele clima de improviso, todo mundo se conhece, palavrão rolando solto, umas fotos de acarajés na parade e coisa e tal. Flórida ( estavamos em Miami !!! ) foi ficar na fila de espera durante a madrugada inteira de olho para ver se ninguém furava a fila. Valia tudo: soco em mulher grávida, dedo no olho de cego e bater em morto. De vez em quando pintava um clima hostil, principalmente quando chegavam brasileiros de outros voos da TAM que realmente tinham direito a entrar nos aviões e passavam na frente de todo mundo. Sabe quando você está no Banco do Brasil lotado e chega uma Kombi cheia de idosos da Marinha ? Tipo isso.

As horas passando, a roupa e o banho já vencidos e os aviões saindo ... o primeiro, o segundo, o terceiro ... Conseguimos embarcar no quarto lá pelo meio-dia de domingo. Não sei o que foi feito de quem ficou para o quinto e inexistente avião.

Aaah, finalmente voltamos para o Brasil.

Pena que nós queríamos ir para o Rio e fomos parar em Campinas ... mas isto é outra história.






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